terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Tradição ainda é o que era... Jogo do Quartão e Enterro do Galo na Chamusca

O Entrudo na Chamusca é cheio de tradição. Na Quarta-Feira de cinzas, juntam-se os homens para um almoço de grelos e bacalhau, o qual é regado com bom vinho da Chamusca. De seguida dá-se início ao tradicional "Jogo do Quartão". Neste "ritual" os homens formam um círculo onde cirandam billhas de barro, e no qual, quem deixar cair a bilha no chão tem de pagar uma "rodada" a todos os participantes no balcão mais próximo. Uma tradição do povo Chamusquense... “Quer saber o que é o Jogo do Quartão? Então é melhor explicar-lhe agora. É que daqui a nada já está tudo a falar sozinho!” Foi assim o nosso primeiro contacto com esta tradição secular, que acontece todas as Quartas-feiras de cinzas na Chamusca. Um grupo de homens passeia pela vila e vai lançando o cântaro ou o quartão. Pelo caminho vão parando de tasca em tasca, onde lhes é oferecida comida e bebida. A “paródia” começa logo a seguir ao almoço e só termina depois da meia-noite, com o Enterro do Galo. Na Quarta-feira de cinzas, quando chega à hora de almoço, vários homens da terra juntam-se para comer grelos com bacalhau. Na altura, conta Francisco Lopes, “bebe-se logo uma pinga boa e depois partimos para a brincadeira”. Esta tradição acontece de forma espontânea. “Não há nenhuma organização para se fazer isto. A malta aparece. Para nós é um dos melhores dias da quadra carnavalesca.” Segundo os participantes, o Jogo do Quartão existe há mais um século. No início, quem lançava o cântaro de barro e fazia o enterro do galo eram as mulheres. Essa tradição foi desaparecendo e a partir de determinada altura o jogo passou para os rapazes. Roubavam os cântaros que serviam para ir buscar água à fonte e começavam a jogar. O cântaro era lançado de mão em mão e quem o partisse tinha que pagar uma rodada de vinho tinto aos outros participantes. Hoje em dia, paga-se a rodada ou uma multa. O dinheiro serve para comprar os cântaros para o ano seguinte. “Dantes, como haviam cântaros em todas as casas, as senhoras é que os davam para nós jogarmos. Outras, que não davam, nós entretínhamo-las à porta e outros iam roubar os cântaros para continuar a brincadeira”, conta Francisco Lopes. “Durante o percurso, vamos parando em casas das pessoas e nas tascas, que nos dão uns petiscos, uns chouriços, farinheiras e a malta vai petiscando e vai roubando um bocadinho de bacalhau. Pelo meio vamos bebendo. Chegamos a um ponto que isto é uma carga de trabalhos. Às vezes até mete assim uma zaragata”. Antigamente, os quartões eram carregados numa carroça, levada por um burro. Hoje seguem numa carrinha pelas ruas da Vila. “A malta vai partindo o cântaro, vai bebendo, vai partindo, vai bebendo, e quando se chega ao fim já só vai metade da caravana. Alguns não aguentam”. E ali vão todos, de rua em rua a lançar o quartão, interrompendo o trânsito e provocando o sorriso e as buzinadelas dos condutores. Assim se passa a tarde, até à hora do jantar. Pelo meio, os “jogadores” vão assinando e deixando dedicatórias em vários cântaros de barro, que são guardados nas tascas da Vila para recordação.

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Enterro do Galo Outro "ritual" tem lugar precisamente nesse dia à meia-noite, para encerrar o Carnaval o chamado "Enterro do Galo". Nesse ritual "enterram-se" todas as coscuvilhices que aconteceram no ano anterior. Mas isto acontece tudo com uma encenação, ou seja no "Enterro do Galo" existe um padre, um sacristão, um morto uma viúva e as carpideiras. Depois do jantar começa o baile, que se prolonga pela noite dentro, “mesmo com a malta já pingada”. Trata-se de um baile carnavalesco, onde se faz o Enterro do Galo. “Durante o ano, as piadas e calhandrices que vão havendo aí na Vila é tudo descoberto nesse baile de Carnaval. A partir da meia-noite, mais ou menos, ali é descoberto tudo o que têm para dizer uns dos outros. Todas as calhandrices, vem tudo à baila”. Os participantes mascaram-se e quando o Padre e o Sacristão dizem qualquer coisa, choram todos ao mesmo tempo. Pelo meio, cada participante verseja sobre uma calhandrice da terra. “Há muita mulherzinha que vai ao baile de propósito para saber as coscuvilhices cá da Vila”. Há cerca de 20 anos atrás, esta tradição era mal vista por muita gente. “Até pró ano e que o galo vos acompanhe”.

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